Archive for Crítica

Esta parte da minha vida chama-se… tédio

The Pursuit of Happyness
O sonho americano. Que bela história, que contada vezes sem conta ao longo da história do cinema inspirou e motivou gerações ao longo de décadas. A questão, é que qualquer história pode ser contada de diferentes formas e esta já o foi. Bem, mal, assim-assim. E por causa desse simples facto, a cada ano que passa será mais difícil contá-la de modo a mover audiências, a tocar corações. Basicamente, estamos fartinhos de a saber. O que faz com que um filme como The Pursuit of Happyness, que não finge ou pretende ser mais do que mais um relato dessa mesma lengalenga tenha nessa honestidade a sua única qualidade. Trocando por miúdos, digamos que a única coisa que não me faz entrar em greve de fome para me redimir do facto de ter gasto 4 euros e duas horas para ver o filme é o facto de este se assumir como aquilo que é sem pretensiosismos. É, simplesmente, o relato do triunfo do underdog, do desfavorecido esmagado pelas circunstâncias.
Neste caso, o desfavorecido em causa é Chris Gardner (Will Smith), que apesar da sua inteligência e eternas boas intenções, acaba por se ver sem emprego fixo, abandonado pela sua mulher (Thandie Newton) e com um filho em idade pré-escolar para criar. Em vez de procurar um biscate medíocre numa oficina ou num restaurante, Chris decide investir 6 meses do seu tempo num estágio não remunerado que se correr bem lhe poderá providenciar uma lucrativa carreira como corrector da bolsa. Claro que entretanto, tendo como única fonte possível de dinheiro a venda de um par de aparelhos médicos virtualmente inúteis que antes vendia porta-a-porta, Chris acaba por perder a casa e ter que viver a vida de sem abrigo juntamente com o seu filho Christopher (Jaden Smith).
Pronto, tentando não ser demasiado cruel, sob pena do ressurgimento de certas acusações de implacabilidade cinematográfica, dou a esta busca pela felicidade mais um par de méritos. A interpretação de Smith é atípica considerando a sua carreira anterior e merece realmente destaque (a nomeação talvez tenha sido demais, mas não vou por aí), já que fez o seu papel o melhor possível. Para além disso a química entre pai e filho no grande ecrã é realmente notável e ao contrário do que alguns possam dizer, isto não seria necessariamente verdade só pelo facto de Smith e Jaden serem na realidade pai e filho, pois as coisas na tela nem sempre resultam da mesma maneira que na vida real.
Esta química é em última instância o único factor que proporciona os momentos que estariam mais próximos de quase me emocionar. Mas a verdade, é que nem ao quase chegou. Não julgo a história, até porque sendo baseada em factos reais, não há muito que se lhe diga, mas repito mais uma vez que qualquer história pode ser contada de muitas maneiras diferentes, e esta foi, simplesmente, mal contada. Um argumento que nem se aguenta de muletas, diálogos forçados e artificiais e uma narração em voz off do protagonista que ainda deu para rir um bocado. Penso que o termo técnico é xaropada, podendo também ser definido como a historieta que nos esfrega na cara como aquela situação é tão triste e tão trágica e como somos pessoas terrivelmente frias e cruéis se não tivermos uma lagrimazita a querer sair. A dualidade, a natureza cinzenta do homem são conceitos terminantemente rejeitados num filme que vê a preto e branco. Bem que podiam ter posto um “t” em frente do nome de Chris e iam logo directos ao assunto, ficando ainda mais claro a natureza anormalmente pura da personagem. Isto para não falar da natureza simplista e quase injuriosa do retrato dos dois universos de Chris: onde ele está – a margem má da vida, reflexo do melting pot americano – e onde ele quer estar – o mundo dos arranha-céus brilhantes, dos homens ricos (e brancos) sentados atrás dos volantes dos seus carros desportivos a caminho dos seus lugares de camarote para ver a bola.
Simplista, maniqueísta, lamechas e… chato.

Disconcordem: 4/10

Discordâncias:

Scientists will someday discover this screenplay is so benign it could probably be used to battle tumors, just not the Oprah crowd that it’s going to be ragingly sold to.

efilmcritic.com

Few on-screen father-son relationships have felt more authentic than that depicted by Will Smith and his real-life son in The Pursuit of Happyness.

Dallas Morning News

Às vezes o melhor é esquecer o passado…

Hannibal Rising
Hannibal Lecter é uma das personagens mais marcantes da última década, que nos tem vindo a intrigar a aterrorizar desde o mítico Silence of the Lambs em 1995. O bom (?!) doutor voltou aos nossos ecrãs em Hannibal e The Red Dragon, eternamente encarnado por Sir Anthony Hopkins, que lhe ofereceu o olhar gélido e uma classe e um charme impreteríveis. E agora, a fazer render a galinha dos ovos de ouro e a juntar-se à moda da prequela, cá está, o filme que ignora a conhecida premissa de que o que mais se teme é o desconhecido. Hannibal Rising quer desconstruir e explicar a origem do mal, o que para além de ser areia a mais para a camioneta de Peter Harris, diminui o singular misto de medo e fascínio que a personagem ostentou desde que a conhecemos.
De modo asséptico, desapaixonado e esquemático, Hannibal Rising esmiúça as acções e motivações do seu protagonista, retirando-lhe lentamente o eterno status de vilão, preferindo identificá-lo com o papel do anti-herói. O jovem Hannibal não age movido por um mal incompreensível, mas por vingança. Reza então esta história que, em plena Segunda Guerra Mundial, os pais dos pequenos Hannibal e Mischa são mortos na sua isolada quinta durante um ataque militar, deixando as crianças à mercê de um grupo de soldados que não prezam pela moral. Impossibilitados de regressar devido aos rigores do Inverno, o grupo sente a fome apertar, pelo que acabam por matar a menina para se alimentarem. O pequeno Lecter sobrevive, crescendo obviamente traumatizado num orfanato londrino até à sua fuga para a casa de sua tia, Lady Murasaki Shikibu (Li Gong), uma bela viúva japonesa com quem, já agora, desenvolverá um relacionamento romântico.
Depois, como seria de esperar, Hannibal alterna os seus estudos de medicina com imaginativos homicídios de personagens completamente odiosas e de quem não temos pena nenhuma, normalmente seguidos de um pequeno lanche em honra da sua falecida irmã. E é isto. Um jovem que costumava ser um vilão brilhante passa a vingador duma criancinha inocente, as vítimas são da pior espécie que há, e pelo meio temos um enredo romântico estranho e rebuscado com uma severa falta de química entre os seus protagonistas.
De qualquer modo não estamos perante uma total perda de tempo, sendo a maior mais-valia do filme Gaspard Ulliel que consegue manter o interesse numa história contada em piloto automático, exibindo um aspecto sinistro e frio através duma beleza não convencional e um charme envolvente e próprio. É Ulliel que dá vida aos melhores momentos do filme, mas mesmo assim estes parecem acabar depressa, voltando a deixar cair a narrativa dormência indiferente que nos faz ter saudades de frases e momentos como “I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti”, Ralph Fiennes exibindo a sua “tranformação” ou simplesmente o arrepiante sussuro “Clarisse…”
A dualidade da luta interna do homem contra o monstro poderia ser profunda e perturbadora, mas não, tudo parece feito de modo superficial, quase politicamente correcto, anulando-se a ambiguidade e sendo-nos esfregado na cara sem sensibilidade o lado bom e humano que houve no psicopata antes deste ser consumido pelos horrores da própria vida. Para além disso, não conseguimos evitar pensar que não pode ser esta toda a história, que a morte prematura e certamente hedionda da angélica irmã não chega para criar a autêntica personificação do mal que é Hannibal Lecter. Fazendo a pergunta sobre a origem do mal esta história diz-nos que este não é puro mas fruto dum ciclo vicioso, que as vítimas serão os predadores, mas no caso do Dr. Lecter (e pela saúde do nosso imaginário cinematográfico) não é essa a resposta que queríamos ouvir.
O thriller psicológico profundo fica infelizmente esquecido num filme de acção com pouco suspense, que dá para entreter durante duas horas mas que não está de modo algum à altura do nome que o suporta. É uma história pálida e simplista sobre o mal gerado pelo mal, que provavelmente resultaria melhor se, simplesmente, a sua personagem principal não se chamasse Hannibal Lecter.

Disconcordem: 5/10

Discordâncias:

The great thing about monsters is that they glide noiselessly from nightmare straight into myth, fully formed and eternally mysterious. To know what made them is to explain them. And once you explain anything, you begin to lose your fear of it.
Lecter is presented as a soul-dead vigilante who reserves his carnage for the truly deserving; that’s a long way from the Lecter of Silence of the Lambs who kills and tortures innocent and guilty alike.

Newark Star-Ledger/Chicago Tribune

Ulliel’s impressive facial dexterity keeps his expressions devoid of emotion, except for slowly sadistic smiles, careful enunciation, and an occasional Hopkins-worthy eye twitch.

Premiere Magazine

Down in the Valley

Down in the Valley
Harlan destoa da paisagem, solitário, tímido e doce, vivendo um dia de cada vez, calcorreando melancolicamente caminhos de terra batida com as suas gastas botas de cowboy enquanto ajeita o chapéu de abas. Não sabemos de onde veio ou porque se comporta como se vivesse no Velho Oeste de Peckinpah, sentimos apenas a sua tristeza e profundo vazio interior. É um homem quebrado e perdido que não sabe o que procura ao qual adivinhamos um passado obscuro de órfão do Estado, que passa o seu tempo construindo o seu mundo particular, falando sozinho e encenando as suas fantasias no seu pequeno apartamento. Vive assim, lentamente, na falta de forças para encarar uma realidade amarga, até que conhece October, uma adolescente revoltada, epíteto da juventude e da beleza, que rapidamente se torna o centro de um mundo privado que antes vagabundeava, sem direcção.
A bizarra e repentina relação segue caminhos tortuosos, proibida por Wade, um homem desiludido que não sabe lidar com os filhos, a rebelde October e o tímido e inseguro Lonnie, e que não sabendo mostrar amor se entrega à frustração e à agressividade.
Edward Norton Down in the Valley
No entanto, em vez de salvar Harlan da alienação da sua vida de brincar, a relação torna-se uma fonte de obsessão para o cowboy imaginário, que perde lentamente a sua já fraca noção da realidade. Harlan transforma-a numa estória romantizada, um filme de índios e cowboys, em que ele se vê como o herói justiceiro, o cavaleiro galante que terá que salvar a sua amada do que na realidade é apenas uma adolescência normal com um pai pouco compreensivo. Mas no universo que criou para si próprio mais ninguém pode viver e o desmoronamento de um mundo que não poderia sobreviver ás mãos da realidade torna-se um perigo iminente.
Down in the Valley Norton Evan
Delicado, introspectivo e negro, apelidado de “Taxi Driver of the heart”, Down in the Valley é uma tragédia grega sobre a derradeira subjugação da fantasia à realidade, que faz uso dos mitos que povoam os imaginários como modo de expressão da esperança humana e possível veículo da sua degeneração em puro delírio. As personagens são dolorosamente reais, complexas e ambíguas, sendo interpretadas magistralmente. Edward Norton exala desespero e melancolia por trás do seu doce sorriso e Evan Rachel Wood, que já mostrara o seu potencial em Thirteen e Once and Again, faz-nos acreditar na possibilidade de um futuro brilhante no grande ecrã, ostentando um encanto irresistivelmente agridoce de uma beleza clássica e uma inocência selvagem. O veterano David Morse completa o magnífico quadro de interpretações, num papel enganador e pleno de subtilezas, mostrando a verdadeira essência da sua personagem nos momentos de silêncio.
Um argumento fantasioso e melancólico, uma fotografia e uma banda sonora capazes de construir um mundo por si só e um elenco perfeito fazem deste filme uma obra especial, sensível e tocante que tal como o seu personagem principal cria para si um nicho peculiar entre o real e o surreal, que requer uma imaginação e uma sensibilidade muito particulares.
Mesmo não sendo para todos, fica completamente aquém da minha compreensão a razão do aparente “directo para DVD”.

    Disconcordem: 8/10

Discordâncias:

The purity of Norton’s madness is a wonder.

New York Magazine

A movie the actors and director take as far as they can until the story bogs down in questions too big to forgive.

Chicago Sun-Times

Monstros descartáveis

Harsh Times
Os demónios interiores de um ex-soldado americano mentalmente instável que tenta (re)construir uma vida normal depois do seu serviço militar no Afeganistão são o catalisador de toda a acção de Harsh Times. Jim Davis (Christian Bale) cruza as ruas de Los Angeles alternando entrevistas de emprego com actividades pouco recomendáveis que frequentemente ultrapassam o limite da legalidade, exibindo ataques de fúria cada vez mais explosivos e imprevisíveis. Arrastando consigo Mike Alonzo (Freddy Rodriguez), o seu melhor amigo de fraca vontade, Jim perde gradualmente o controlo sobre as suas próprias acções, transformando-se numa autêntica bomba relógio, numa peça perdida do espólio duma guerra que lutou e que o marcou indelevelmente. A sua humanidade parece cada vez mais residual à medida que Davis entra numa espiral de auto-destruição e caos, pondo em perigo o futuro que desejava construir para si próprio ao lado da sua namorada de longa data, tal como o daqueles que o rodeiam. Temos assim uma boa premissa num filme que poderia ser um testemunho contra a máquina americana de fabrico de soldados descartáveis e moralmente deficientes, impregnados de um patriotismo cego e vazio, mas infelizmente a direcção de David Ayer confunde-se e acaba por se perder na história que quer contar.
Harsh Times começa devagar e dá voltas excessivas e desnecessárias em redor dos dois amigos que circulam pela cidade num lento crescendo dramático, deparando-se com situações cada vez mais precárias e explosivas. Esperamos demasiado tempo pela descolagem da narrativa, que acaba por transparecer uma certa fragilidade e instabilidade na falta de um “cimento” que ligue de forma consistente as diferentes sequências, algumas delas de grande intensidade emocional. De qualquer modo, o filme vai melhorando, encontrando a sua personalidade e ritmo com o tempo e proporcionando finalmente um desfecho muito bem conseguido que não é de todo imprevisível, mas que também não tinha que ser. Este não é um filme de “twists”, mas sim da inevitabilidade do óbvio e Ayer consegue exprimi-la de forma contundente e crua, num pico dramático com pouca arte mas muita emoção.
A inevitável, e por vezes menos subtil do que se desejaria, crítica social tenta elucidar-nos duma realidade escondida, mostrar-nos os monstros no escuro, mas peca cedendo momentaneamente ao exagero e ao rocambolesco, o que pode pôr a verosimilhança e realismo do argumento em risco. Os diálogos não são o forte e a interacção entre as personagens chega a ser irritante de tanto que parece saída de um videoclip de “gangsta rap”, soando muitas vezes forçada e estereotipada e dificultando a identificação do espectador com as personagens. Contudo, um dos grandes trunfos é a forte (e inesperada) química entre Bale e Rodriguez. O seu companheirismo macho, misógino e quase arcaico exala de cada imagem, deixando entrever um laço muito forte entre os dois homens que dá sentido à narrativa e à sucessão de situações cada vez mais complicadas que de outro modo seria inverosímil. Freddy Rodriguez oferece uma óptima interpretação na pele de um homem indeciso e dividido entre lealdades, que se deixa levar ao sabor das vontades alheias demasiadas vezes. Eva Longoria é Sylvia, a namorada de Mike e dá consigo a encarnar mais uma vez uma dona de casa desesperada, que preconiza o pior enquanto tenta afastar o companheiro da má influência de Jim. Eva parece continuar a sua procura pelo caminho certo em Hollywood e consegue aqui fazer-se notar no ecrã, ao contrário do que aconteceu na sua recente (e inútil) participação em The Sentinel, que foi despropositada e esquecível. No entanto, ainda lhe resta conseguir entrar num filme em que a sua apresentação não constitua em mais um plano guloso da senhora a afastar-se enquanto o lânguido olhar da câmara a percorre de cima a baixo…
O melhor é, claro, a presença de Christian Bale, que toma mais uma vez conta do ecrã provando de uma vez por todas que encarna sociopatias como ninguém, mas Davis é um homem arrogante, inculto, convencido, incauto e um fala-barato incorrigível, tomando características que não estamos habituados a ver Bale personificar, o que pode causar alguma estranheza depois de personagens silenciosas, introvertidas e mesmo frias tão marcantes como Patrick Bateman, John Preston, Trevor Reznick, ou mesmo Bruce Wayne.
Tempos Cruéis é um filme interessante, com bons momentos e boas interpretações que sobrevive às inevitáveis e compreensíveis comparações com Training Day, também escrito por Ayer. Entretém o espectador, especialmente o apreciador do género, mas sofre pela falta de subtileza e decisão na direcção e de naturalidade e fluidez no argumento. Fica a saber a pouco e pressentimos que podia ser muito mais. Vale especialmente por Bale.

    Disconcordem: 6.5/10

Discordâncias:

There’s a sharp edge of attitude and humour in the script that keeps us riveted, especially since it’s so brilliantly played.

Shadows on the Wall

The film builds to a melodramatic finale that would like to make you weep, but by then it has worn out your patience.

New York Times

Deliciosa inconsequência

Scoop
Scoop não é definitivamente o furo do ano para Woody Allen. Mau? Certamente que não. Menor e possivelmente esquecível relativamente à maior parte da filmografia do autor? Provavelmente. Mas convenhamos, a fasquia é bastante alta. Scoop tem como grande trunfo uma performance refrescante e mesmo atípica de Scarlett Johansson, que afirma o seu talento e versatilidade a cada novo trabalho. A interpretação da jovem actriz assume um tom descontraído, quase acidental, conjugando-se de modo sublime com a presença típica e hilariante do Woody Allen a que já nos habituamos. Infelizmente, encontramos Hugh Jackman ligeiramente apagado, num papel muito “understated” e mesmo ciente da mania de Scarlett de roubar cenas não posso deixar de me surpreender com a discrição de Jackman, especialmente após os fortes papéis que lhe tem passado pelas mãos. O catalisador de todas as bizarras e alucinadas peripécias de Scoop é o falecido jornalista Joe Strombel, que insiste em voltar à terra dos vivos para incitar Sondra Pransky (Scarlett Johansson) a desmascarar o proeminente Peter Lyman (Hugh Jackman) como o famoso assassino da carta de tarot que anda a aterrorizar Londres. Quem lhe veste a pele translúcida é Ian McShane, e fá-lo magistralmente, conseguindo fazer-se notar das poucas e curtas vezes que aparece no ecrã.
Temos nas mãos um prazer tão delicioso como inconsequente, que faz uso duma boa e improvável premissa, de uma narrativa simples e muito “clean” e do humor negro para nos fazer sorrir. Scoop atinge esse objectivo de modo eficaz, sem aspirar a muito mais, através dos maneirismos tão característicos do autor, os diálogos frescos e extremamente bem escritos, e de momentos preciosos, sendo da minha preferência as sequências “entre mundos” em que acompanhamos o barco da grande ceifeira fazendo a travessia das almas para o além.
Ficamos então com uma boa comédia e um filme muito agradável com um elenco fantástico. Não me parece que ninguém fique a perder.
E digo isto com todo o respeito.

    Disconcordem: 6/10

Discordâncias:

Some may dismiss Scoop as “minor Woody Allen” because it doesn’t traffic in major phsychological probes. But it makes you smile. And that’s not such a minor accomplishment.

Dallas Morning News

Filmmaking for Allen appears to have settled into little more than personal habit, like shaving, dining or playing clarinet. The result has from some time been a hit-and-miss process.

Newsday

Perdido

Breaking and Entering
Breaking and Entering é um drama sobre pessoas falhas de identidade, perdidas, impotentes e impassíveis de encontrar os seus próprios caminhos. É um filme construído sobre o cinzento, a ausência de representações completas do bem ou do mal, da vida a preto e branco. O crime, a quebra da lei, o erro são elementos inerentes à humanidade, como o são a dor e a procura contínua de algo semelhante ao arquétipo individual de felicidade. Os caminhos são obscuros e retorcidos, e cada um deambula pela vida sem mapa, numa busca incessante por algo indefinido mas essencial e os choques entre corpos e vontades são inevitáveis.
Anthony Minghella surge armado da sua natural sofisticação estética e formal, mas parece difuso, perdido, deixando a câmara flutuar ligeiramente acima da superfície dos sentimentos e das dores das suas personagens. As imagens e a sua sensibilidade fria parecem ficar aquém do toque humano, não conseguindo, por alguma razão, aquecer ou perturbar o espectador a um nível mais profundo. De certo modo, a distância e intangilibildade das relações entre as personagens estudada na obra parece reflectir-se na sua relação com o público.
O arranque da história é lento e demoramos a conseguir apontar o tom definitivo do filme, enquanto que o fim parece atar demasiadas pontas soltas após uma trama de emoções indefinidas e profundas que anteriormente assaltaram as personagens revolvendo completamente as suas vidas. As feridas, tão profundas e confusas, que fizeram questionar rumos e vidas, não parecem passíveis de sarar de forma tão limpa e célere, deixando apenas uma leve sombra de dor como de um acontecimento distante no tempo, o que faz com que o desfecho corra o risco de ser insatisfatório e de roçar a implausibilidade.
Breaking and Entering
O prato forte e a melhor arma de Minghella é o cast, em que se destacam Robin Wright Penn, que ostenta uma interpretação poderosa com base no silêncio, dotada de uma subtileza gélida que desenha a ténue linha entre dor e frieza e Juliette Binoche, com uma intensidade habitual, que é o retrato da deslocação emocional e espacial e do desespero (mal) contido. Jude Law parece melhorar com a idade e assume aqui o protagonismo com classe e sangue-frio, mas parece diluir-se enquanto Penn ou Binoche lhe roubam subtilmente as cenas. Vera Farmiga é também digna de nota, dando vida a uma personagem tão ambígua como alegórica que proporciona ao filme um equilíbrio que evita o negativismo total e oferece os únicos sorrisos que possamos retirar da experiência, tal como um paradoxal sentido de esperança na natureza humana.
Sob o olhar de Minghella e o vaivém de Will (Jude Law), Londres torna-se quase uma personagem activa no enredo, adquirindo uma luz e uma vida pouco habituais e aparecendo levemente surpresa, paralisada e cansada perante a velocidade alucinante própria de uma cidade cosmopolita que duvida da própria identidade.
Estamos definitivamente perante uma obra cuidada, inteligente, civilizada e contida, mas que se sente estranhamente aérea, distante e difusa e que transmite para fora a frieza que se deveria cingir apenas ao seu interior.

    Disconcordem: 6/10

Discordâncias

Anthony Minghella’s film is conspicuously thoughtful and civilized as it provides a close-up snapshot of particular aspects of life in London at this moment.

Variety

Despite Minghella’s admirable attempt to tackle major themes on an intimate scale, the film goes down like weak tea.

Rolling Stone

The Queen

The Queen
The Queen relata os eventos que seguiram a trágica e inesperada morte da Princesa Diana – as lágrimas, as homenagens, os conflitos, as repercussões, a desesperada e tantas vezes injusta atribuição de culpas. Narra, num ritmo constante, calmo e contido, uma semana que não será facilmente apagada pelo tempo para o povo britânico ou para a sua rainha, Sua Majestade Rainha Isabel II. Cada cena é marcada indelevelmente por um profundo confronto, uma dualidade contrastante. O sofrimento massivo e quase histérico do povo britânico contrasta com a dor discreta e contida da monarca, tal como as opiniões da família real e do recém-eleito Primeiro Ministro, Tony Blair, quanto ao procedimento indicado são profundamente divergentes.
As imagens sucedem-se exprimindo silenciosamente o intenso conflito pessoal da Rainha, subentendido e doloroso, próprio de uma mulher reservada que valoriza o seu domínio privado e que leva muito a sério o seu papel na esfera pública, que se vê numa situação que não compreende, em que enfrenta uma nova ordem de valores e se vê compelida a subverter os valores rígidos com que foi criada. Os protocolos são de vital importância para a monarquia, mas o povo ignora-os e exige tratamento real para alguém que abdicou voluntariamente do seu estatuto de membro da família real .
Tony Blair (Michael Sheen), ainda inseguro no seu novo cargo, está convicto da necessidade de Isabel II (Helen Mirren) vergar a sua vontade à do povo enlutado, apercebendo-se gradualmente de que a irredutibilidade da posição da rainha lhe poderá mesmo custar a coroa. A dualidade entre os ambientes domésticos da residência real e da casa do Primeiro Ministro é também altamente denunciadora da alienação da Família Real relativamente ao seu povo. Na casa da família Blair vemos reflectida a classe média, uma vida “normal”, imperfeita e irregular, numa casa em que tudo se discute, tudo é dito, mesmo que as vozes não sejam concordantes, enquanto que a Família Real é um aglomerado de relações construídas sobre o não-dito, o contacto é polido e apropriado, sendo a linha entre a contenção e a frieza ténue e nem sempre discernível.
A Rainha mostra-nos o reverso da moeda de modo imparcial, mordaz e mesmo sarcástico, com recurso a um humor inglês refinado e subtil. Perante uma situação tão perturbadora, complexa e inesperada, a Família Real foi culpada e aviltada pelo povo, tanto quanto a falecida Princesa foi elevada ao estatuto de heroína nacional. Mas nesta película ninguém sai incólume, ninguém é louvado nem vilificado incondicionalmente. Existe uma profunda humanização dos intervenientes, sendo cruamente exposta a cobardia, a nobreza, a frieza, a cumplicidade, a mentira e a teimosia. Mesmo no caso da (quase) intocável princesa é exposto o “outro lado”, ignorado pelo público. É feita de modo acutilante, através do uso da imagem documental, a oposição entre a Diana privada e a Diana pública, santificada, nascida das revistas cor-de-rosa, das obras de caridade e das entrevistas chorosas em tom de martírio e heroísmo trágico.
A rainha sente o peso do mundo nas costas, visível na expressão da soberba Helen Mirren, ao ouvir as crescentes exigências populares por lágrimas, manifestações públicas de dor e pesar e por um funeral real para a Lady Di do povo que ela não conhecera. Incompreendida, a sua rigidez de valores transfigura-se para o povo em frieza, culpa e ódio. O público apontava um dedo acusador à monarca considerando mesmo o fim do seu reinado e do próprio regime. Pressionada, antevendo a possibilidade de uma grave crise política, Isabel II acabou por ceder fazendo uma declaração pública em honra da ex-nora e concedendo honras reais num funeral extremamente mediático e crivado de celebridades.
No entanto a questão subtilmente colocada por Stephen Frears é se terá sido esse o procedimento correcto. Não estaria a Rainha correcta nas suas convicções? Não deveria ter permanecido fiel aos protocolos que sempre fora compelida a seguir e respeitar? Deveria o circo mediático e a fúria das celebridades atingir proporções tais que rompesse a tradição do próprio regime monárquico?
Pertinente, acutilante e sublime.

    Disconcordem: 8/10

Discordâncias:

A Rainha é a comédia mais reverentemente irreverente imaginável. Ou talvez seja a comédia mais irreverentemente reverente. De qualquer modo, é uma pequena obra-prima.

New York Magazine

Aborreceu-me. Permanecendo um enigma, a Rainha Isabel não tem “perfil” de personagem.

Filmsinreview.com

Ensaio sobre a obsessão

The Prestige
Não há muito que eu possa dizer sobre The Prestige que não tenha já sido dito e repetido várias vezes por esta cinesfera fora. É uma história intensa e poderosa sobre duas vidas que se entrecruzaram na tragédia e passaram a estar visceralmente ligadas pela obsessão, inveja e desejo de vingança. Os truques e os enganos extrapolam-se da carreira profissional dos ilusionistas Alfred Borden (Christian Bale) e Robert Angiers (Hugh Jackman) para as suas vidas pessoais e para os seus métodos, usados sempre para roubar o rival, desgraçá-lo, envergonhá-lo, destruir o seu trabalho e qualquer possibilidade de felicidade ou realização pessoal. Dois homens calculistas e obcecados que se odeiam, mas intimamente ligados no mesmo propósito – ultrapassar e destruir o seu inimigo. As pessoas nas suas vidas, as suas famílias e amigos tentam construir uma vida com eles, afastá-los da fixação doentia que nutrem um pelo outro, mas sempre sem sucesso. Olivia Wenscombe (Scarlett Johansson), assistente de magia de Angiers é irremediavelmente apanhada na teia de enganos, Sarah Borden (Rebecca Hall), a esposa Alfred, sofre com a alienação do marido, e mesmo Cutter (Michael Caine), engenheiro e amigo próximo de Angiers tenta dissuadi-lo de levar a cabo os seus planos mirabolantes, procurando apanhar os pedaços depois da destruição causada. Os secundários são de luxo, especialmente Michael Caine, que brilha, destilando uma certa tristeza interior de quem carrega segredos a mais e se sente impotente para prevenir a desgraça e a loucura. Scarlett Johanssen chama muito menos a atenção sobre si do que o que estamos habituados, não conseguindo roubar as cenas aos brilhantes e irrepreensíveis Bale e Jackman. David Bowie tem também uma óptima contribuição como o famoso, místico e incompreendido cientista croata Nikola Tesla, personagem real que providencia uma outra dimensão ao filme, esbatendo a linha entre realidade e ficção. Tesla é envolvido na trama por Borden e torna-se numa espécie de oráculo, preconizando que nada de bom poderá advir da obssessão de Angiers.
O filme exige que sigamos a sugestão da tagline à risca – “Are you watching closely?”. Nolan conta a sua história recorrendo a inúmeras prolepses e analepses, usando o mesmo método que as suas personagens ilusionistas – tenta confundir o espectador, levando-o a olhar para um elemento específico e calculado e distraindo-o do pormenor escondido que providencia a resposta ao enigma. O Terceiro Passo é daqueles filmes que horas depois de termos saído da sala de cinema ainda damos por nós a encaixar mais uma pequena peça. Construído com mestria, por confuso que possa parecer, o argumento resolve-se em si mesmo, nada é deixado ao acaso, como é já habitual no racionalismo quase mecânico de Nolan. Tendo sido acusado de frieza e calculismo excessivo, tanto no argumento como na caracterização das personagens, The Prestige é um jogo de lógica extremamente concentrado no seu objectivo, um quebra-cabeças soberbamente concebido e que dá gosto tentar resolver. No entanto, e sentindo-me obrigada a recorrer à inevitável comparação com a sua obra-prima, Memento, a imprevisibilidade do desfecho não é inevitável. Se, com efeito, estivermos atentos e preferirmos tentar descortinar o final antes do tempo em vez de nos deixarmos levar ao sabor da narrativa até à derradeira surpresa, o desenlace da trama pode ser adivinhado, com mais ou menos precisão no pormenor, ao contrário do que acontece com Memento, que realmente fica uns pontos acima desta obra. De qualquer modo, na minha modesta opinião enquanto fã da película, Memento será uma fasquia que Nolan terá extrema dificuldade em ultrapassar ou mesmo igualar, o que não pode de qualquer modo invalidar a excelência dos seus outros trabalhos. Até porque se invertermos a comparação, e contrastarmos The Prestige com o resto da produção cinematográfica de 2006, temos claramente nas nossas mãos um dos melhores filmes do ano.

    Disconcordem: 8/10

Discordâncias:

Combina muito verniz, um envolvimento mediano das personagens e um desfecho confuso.

Variety

Uma obra deslumbrante que me deixou ansioso por vê-la mais uma vez.

The Guardian

A beleza da violência em Apocalypto

O sucesso comercial de Apocalypto poderá deparar-se com vários entraves, desde o uso de uma língua quase morta e completamente ininteligível para a maioria, até à recente publicidade negativa que o álccol e os impropérios anti-semitas de Mel Gibson lhe trouxeram, passando pelo frenesi de acusações de violência excessiva e desnecessária.

A verdade é que as legendas servem para alguma coisa e o alcoolismo de Gibson não me afecta rigorosamente nada enquanto estou no cinema, tal como o alegado anti-semitismo, já que no filme não me pareceu que a razão atribuída à queda da civilização maia tivesse alguma coisa a ver com judeus. A não ser que me tenha escapado alguma coisa.

A violência, o banho de sangue, as entranhas e a tortura que fizeram as almas mais sensíveis bradarem aos céus são verdadeiras, estão lá, bem à vista de todos, e não há espectador que não se tenha retorcido umas poucas vezes na cadeira. Desnecessário? Não me parece. Muitas das cenas causaram-me desconforto mas este é, na minha opinião, necessário e intencional. O filme retrata uma civilização primitiva num estado de guerra, a luta pela sobrevivência ao nível mais básico, instintivo e físico. A violência é crua, directa e brutal, servindo não só para nos infundir o medo e o terror experimentados pelas personagens, mas também para expressar a brutalidade e o animalismo da luta e da época, criando a atmosfera de decadência civilizacional e proporcionando uma visão dos extremos de selvajaria alcançados perante a iminência do declínio.

Claro que depois de se ter verificado o mesmo tipo de polémica com a Paixão de Cristo, e mesmo com Braveheart (a já clássica cena do esventramento), o espectador já entra no cinema de pé atrás, perguntando-se se tanto castigo terá uma explicação e uma intenção cinematográfica por detrás, ou se servirá apenas para aplacar alguns dos demónios pessoais de Gibson, ou para lhe satisfazer alguma fixação sádica recalcada. É verdade que Gibson tem mostrado uma clara inclinação para se exprimir através de uma imagística ultra-violenta e de situações extremas que roçam o sadismo, sendo também do conhecimento geral que demónios não lhe faltam. Mas penso que o melhor método será abstrairmo-nos dessas especulações e avaliar cada filme por si só.

Violências à parte, o filme mostra-nos uma civilização perdida, providenciando um retrato assombroso, envolvente e vívido, com uma atenção ao pormenor estimulante, apesar das acusações de inexactidão histórica, tendo mesmo sido dito que o filme confunde a civilização maia com a azteca ou a inca. Mesmo que o mundo retratado seja mais imaginado do que alguma vez foi real, torna-se verdadeiro, quase palpável, levando-nos a acreditar naquele lugar e na sua gente. A profundidade e dimensão das personagens deixa algo a desejar, sendo estas bastante elementares, fazendo pouco mais do que o que já esperávamos delas. Pode dizer-se o mesmo da narrativa, muito simples e linear, que por poucas vezes nos surpreende, mas que sem ceder a grandes descrições ou explicações resulta bastante bem, no quadro básico do thriller.

Jaguar Paw (Rudy Youngblood), o protagonista, vive numa aldeia recôndita e bucólica com a sua pequena tribo, até à chegada de cruéis guerreiros maias que dizimam a povoação, massacrando metade dos seus habitantes e sequestrando a outra metade com o intuito os usar em sacrifícios humanos em tributo aos deuses. Jaguar Paw, entre os cativos, faz a penosa viagem até à cidade maia dos invasores, mas acaba por conseguir escapar. A segunda parte do filme é uma longa fuga pela própria sobrevivência e pelo intuito de tentar reencontrar a família deixada para trás, filmada meticulosa e incansavelmente.

O filme vale a pena, apesar de não corresponder à aura de cinema de autor em que foi envolto, proporcionando um óptimo entretenimento, agarrando a nossa atenção até ao fim, e possuíndo momentos intensos de grande beleza.

    Discordem: 7.5/10

    Discordâncias:

    É um épico com pompa e circunstância, o Ben-Hur dos tempos modernos

    Los Angeles Times

    Não passa de um exercício de puro e amoral sensacionalismo

    Village Voice