Down in the Valley

Down in the Valley
Harlan destoa da paisagem, solitário, tímido e doce, vivendo um dia de cada vez, calcorreando melancolicamente caminhos de terra batida com as suas gastas botas de cowboy enquanto ajeita o chapéu de abas. Não sabemos de onde veio ou porque se comporta como se vivesse no Velho Oeste de Peckinpah, sentimos apenas a sua tristeza e profundo vazio interior. É um homem quebrado e perdido que não sabe o que procura ao qual adivinhamos um passado obscuro de órfão do Estado, que passa o seu tempo construindo o seu mundo particular, falando sozinho e encenando as suas fantasias no seu pequeno apartamento. Vive assim, lentamente, na falta de forças para encarar uma realidade amarga, até que conhece October, uma adolescente revoltada, epíteto da juventude e da beleza, que rapidamente se torna o centro de um mundo privado que antes vagabundeava, sem direcção.
A bizarra e repentina relação segue caminhos tortuosos, proibida por Wade, um homem desiludido que não sabe lidar com os filhos, a rebelde October e o tímido e inseguro Lonnie, e que não sabendo mostrar amor se entrega à frustração e à agressividade.
Edward Norton Down in the Valley
No entanto, em vez de salvar Harlan da alienação da sua vida de brincar, a relação torna-se uma fonte de obsessão para o cowboy imaginário, que perde lentamente a sua já fraca noção da realidade. Harlan transforma-a numa estória romantizada, um filme de índios e cowboys, em que ele se vê como o herói justiceiro, o cavaleiro galante que terá que salvar a sua amada do que na realidade é apenas uma adolescência normal com um pai pouco compreensivo. Mas no universo que criou para si próprio mais ninguém pode viver e o desmoronamento de um mundo que não poderia sobreviver ás mãos da realidade torna-se um perigo iminente.
Down in the Valley Norton Evan
Delicado, introspectivo e negro, apelidado de “Taxi Driver of the heart”, Down in the Valley é uma tragédia grega sobre a derradeira subjugação da fantasia à realidade, que faz uso dos mitos que povoam os imaginários como modo de expressão da esperança humana e possível veículo da sua degeneração em puro delírio. As personagens são dolorosamente reais, complexas e ambíguas, sendo interpretadas magistralmente. Edward Norton exala desespero e melancolia por trás do seu doce sorriso e Evan Rachel Wood, que já mostrara o seu potencial em Thirteen e Once and Again, faz-nos acreditar na possibilidade de um futuro brilhante no grande ecrã, ostentando um encanto irresistivelmente agridoce de uma beleza clássica e uma inocência selvagem. O veterano David Morse completa o magnífico quadro de interpretações, num papel enganador e pleno de subtilezas, mostrando a verdadeira essência da sua personagem nos momentos de silêncio.
Um argumento fantasioso e melancólico, uma fotografia e uma banda sonora capazes de construir um mundo por si só e um elenco perfeito fazem deste filme uma obra especial, sensível e tocante que tal como o seu personagem principal cria para si um nicho peculiar entre o real e o surreal, que requer uma imaginação e uma sensibilidade muito particulares.
Mesmo não sendo para todos, fica completamente aquém da minha compreensão a razão do aparente “directo para DVD”.

    Disconcordem: 8/10

Discordâncias:

The purity of Norton’s madness is a wonder.

New York Magazine

A movie the actors and director take as far as they can until the story bogs down in questions too big to forgive.

Chicago Sun-Times

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