Monstros descartáveis

Harsh Times
Os demónios interiores de um ex-soldado americano mentalmente instável que tenta (re)construir uma vida normal depois do seu serviço militar no Afeganistão são o catalisador de toda a acção de Harsh Times. Jim Davis (Christian Bale) cruza as ruas de Los Angeles alternando entrevistas de emprego com actividades pouco recomendáveis que frequentemente ultrapassam o limite da legalidade, exibindo ataques de fúria cada vez mais explosivos e imprevisíveis. Arrastando consigo Mike Alonzo (Freddy Rodriguez), o seu melhor amigo de fraca vontade, Jim perde gradualmente o controlo sobre as suas próprias acções, transformando-se numa autêntica bomba relógio, numa peça perdida do espólio duma guerra que lutou e que o marcou indelevelmente. A sua humanidade parece cada vez mais residual à medida que Davis entra numa espiral de auto-destruição e caos, pondo em perigo o futuro que desejava construir para si próprio ao lado da sua namorada de longa data, tal como o daqueles que o rodeiam. Temos assim uma boa premissa num filme que poderia ser um testemunho contra a máquina americana de fabrico de soldados descartáveis e moralmente deficientes, impregnados de um patriotismo cego e vazio, mas infelizmente a direcção de David Ayer confunde-se e acaba por se perder na história que quer contar.
Harsh Times começa devagar e dá voltas excessivas e desnecessárias em redor dos dois amigos que circulam pela cidade num lento crescendo dramático, deparando-se com situações cada vez mais precárias e explosivas. Esperamos demasiado tempo pela descolagem da narrativa, que acaba por transparecer uma certa fragilidade e instabilidade na falta de um “cimento” que ligue de forma consistente as diferentes sequências, algumas delas de grande intensidade emocional. De qualquer modo, o filme vai melhorando, encontrando a sua personalidade e ritmo com o tempo e proporcionando finalmente um desfecho muito bem conseguido que não é de todo imprevisível, mas que também não tinha que ser. Este não é um filme de “twists”, mas sim da inevitabilidade do óbvio e Ayer consegue exprimi-la de forma contundente e crua, num pico dramático com pouca arte mas muita emoção.
A inevitável, e por vezes menos subtil do que se desejaria, crítica social tenta elucidar-nos duma realidade escondida, mostrar-nos os monstros no escuro, mas peca cedendo momentaneamente ao exagero e ao rocambolesco, o que pode pôr a verosimilhança e realismo do argumento em risco. Os diálogos não são o forte e a interacção entre as personagens chega a ser irritante de tanto que parece saída de um videoclip de “gangsta rap”, soando muitas vezes forçada e estereotipada e dificultando a identificação do espectador com as personagens. Contudo, um dos grandes trunfos é a forte (e inesperada) química entre Bale e Rodriguez. O seu companheirismo macho, misógino e quase arcaico exala de cada imagem, deixando entrever um laço muito forte entre os dois homens que dá sentido à narrativa e à sucessão de situações cada vez mais complicadas que de outro modo seria inverosímil. Freddy Rodriguez oferece uma óptima interpretação na pele de um homem indeciso e dividido entre lealdades, que se deixa levar ao sabor das vontades alheias demasiadas vezes. Eva Longoria é Sylvia, a namorada de Mike e dá consigo a encarnar mais uma vez uma dona de casa desesperada, que preconiza o pior enquanto tenta afastar o companheiro da má influência de Jim. Eva parece continuar a sua procura pelo caminho certo em Hollywood e consegue aqui fazer-se notar no ecrã, ao contrário do que aconteceu na sua recente (e inútil) participação em The Sentinel, que foi despropositada e esquecível. No entanto, ainda lhe resta conseguir entrar num filme em que a sua apresentação não constitua em mais um plano guloso da senhora a afastar-se enquanto o lânguido olhar da câmara a percorre de cima a baixo…
O melhor é, claro, a presença de Christian Bale, que toma mais uma vez conta do ecrã provando de uma vez por todas que encarna sociopatias como ninguém, mas Davis é um homem arrogante, inculto, convencido, incauto e um fala-barato incorrigível, tomando características que não estamos habituados a ver Bale personificar, o que pode causar alguma estranheza depois de personagens silenciosas, introvertidas e mesmo frias tão marcantes como Patrick Bateman, John Preston, Trevor Reznick, ou mesmo Bruce Wayne.
Tempos Cruéis é um filme interessante, com bons momentos e boas interpretações que sobrevive às inevitáveis e compreensíveis comparações com Training Day, também escrito por Ayer. Entretém o espectador, especialmente o apreciador do género, mas sofre pela falta de subtileza e decisão na direcção e de naturalidade e fluidez no argumento. Fica a saber a pouco e pressentimos que podia ser muito mais. Vale especialmente por Bale.

    Disconcordem: 6.5/10

Discordâncias:

There’s a sharp edge of attitude and humour in the script that keeps us riveted, especially since it’s so brilliantly played.

Shadows on the Wall

The film builds to a melodramatic finale that would like to make you weep, but by then it has worn out your patience.

New York Times

1 Comentário »

  1. Oeu Said:

    so axo q o menino Bale tem q se acalmar…de repente começou a aparecer em tudo o q eh filme…e isso nao é positivo…

    e pronto, escolher melhor os filmes! ele é um excelente actor, mas grandes actores nao conseguem transformar um filme mau, num filme bom, por mto bons q sejam!!

    basta ver o Ruy de Carvalho e a TVi😦


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