The Queen

The Queen
The Queen relata os eventos que seguiram a trágica e inesperada morte da Princesa Diana – as lágrimas, as homenagens, os conflitos, as repercussões, a desesperada e tantas vezes injusta atribuição de culpas. Narra, num ritmo constante, calmo e contido, uma semana que não será facilmente apagada pelo tempo para o povo britânico ou para a sua rainha, Sua Majestade Rainha Isabel II. Cada cena é marcada indelevelmente por um profundo confronto, uma dualidade contrastante. O sofrimento massivo e quase histérico do povo britânico contrasta com a dor discreta e contida da monarca, tal como as opiniões da família real e do recém-eleito Primeiro Ministro, Tony Blair, quanto ao procedimento indicado são profundamente divergentes.
As imagens sucedem-se exprimindo silenciosamente o intenso conflito pessoal da Rainha, subentendido e doloroso, próprio de uma mulher reservada que valoriza o seu domínio privado e que leva muito a sério o seu papel na esfera pública, que se vê numa situação que não compreende, em que enfrenta uma nova ordem de valores e se vê compelida a subverter os valores rígidos com que foi criada. Os protocolos são de vital importância para a monarquia, mas o povo ignora-os e exige tratamento real para alguém que abdicou voluntariamente do seu estatuto de membro da família real .
Tony Blair (Michael Sheen), ainda inseguro no seu novo cargo, está convicto da necessidade de Isabel II (Helen Mirren) vergar a sua vontade à do povo enlutado, apercebendo-se gradualmente de que a irredutibilidade da posição da rainha lhe poderá mesmo custar a coroa. A dualidade entre os ambientes domésticos da residência real e da casa do Primeiro Ministro é também altamente denunciadora da alienação da Família Real relativamente ao seu povo. Na casa da família Blair vemos reflectida a classe média, uma vida “normal”, imperfeita e irregular, numa casa em que tudo se discute, tudo é dito, mesmo que as vozes não sejam concordantes, enquanto que a Família Real é um aglomerado de relações construídas sobre o não-dito, o contacto é polido e apropriado, sendo a linha entre a contenção e a frieza ténue e nem sempre discernível.
A Rainha mostra-nos o reverso da moeda de modo imparcial, mordaz e mesmo sarcástico, com recurso a um humor inglês refinado e subtil. Perante uma situação tão perturbadora, complexa e inesperada, a Família Real foi culpada e aviltada pelo povo, tanto quanto a falecida Princesa foi elevada ao estatuto de heroína nacional. Mas nesta película ninguém sai incólume, ninguém é louvado nem vilificado incondicionalmente. Existe uma profunda humanização dos intervenientes, sendo cruamente exposta a cobardia, a nobreza, a frieza, a cumplicidade, a mentira e a teimosia. Mesmo no caso da (quase) intocável princesa é exposto o “outro lado”, ignorado pelo público. É feita de modo acutilante, através do uso da imagem documental, a oposição entre a Diana privada e a Diana pública, santificada, nascida das revistas cor-de-rosa, das obras de caridade e das entrevistas chorosas em tom de martírio e heroísmo trágico.
A rainha sente o peso do mundo nas costas, visível na expressão da soberba Helen Mirren, ao ouvir as crescentes exigências populares por lágrimas, manifestações públicas de dor e pesar e por um funeral real para a Lady Di do povo que ela não conhecera. Incompreendida, a sua rigidez de valores transfigura-se para o povo em frieza, culpa e ódio. O público apontava um dedo acusador à monarca considerando mesmo o fim do seu reinado e do próprio regime. Pressionada, antevendo a possibilidade de uma grave crise política, Isabel II acabou por ceder fazendo uma declaração pública em honra da ex-nora e concedendo honras reais num funeral extremamente mediático e crivado de celebridades.
No entanto a questão subtilmente colocada por Stephen Frears é se terá sido esse o procedimento correcto. Não estaria a Rainha correcta nas suas convicções? Não deveria ter permanecido fiel aos protocolos que sempre fora compelida a seguir e respeitar? Deveria o circo mediático e a fúria das celebridades atingir proporções tais que rompesse a tradição do próprio regime monárquico?
Pertinente, acutilante e sublime.

    Disconcordem: 8/10

Discordâncias:

A Rainha é a comédia mais reverentemente irreverente imaginável. Ou talvez seja a comédia mais irreverentemente reverente. De qualquer modo, é uma pequena obra-prima.

New York Magazine

Aborreceu-me. Permanecendo um enigma, a Rainha Isabel não tem “perfil” de personagem.

Filmsinreview.com

1 Comentário »

  1. Carlos Rodrigues Said:

    Um filme deveres interessante que mostra o outro lado nao so da familia real, como tambem de outras figuras mediaticas deste filme…Contudo nao posso concordar contigo na parte em que afirmas que a rainha contrastava uma dor discreta e contida, porque na minha opiniao, nao havia dor por parte da rainha em relaçao a morte da princesa diana…poderia haver algum sentido de piedade por aquela tragica morte talvez…mas na minha opiniao, pareceu-me bastante claro, o sentimento bastante diminuto da familia real em relaçao a diana.


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