Ensaio sobre a obsessão

The Prestige
Não há muito que eu possa dizer sobre The Prestige que não tenha já sido dito e repetido várias vezes por esta cinesfera fora. É uma história intensa e poderosa sobre duas vidas que se entrecruzaram na tragédia e passaram a estar visceralmente ligadas pela obsessão, inveja e desejo de vingança. Os truques e os enganos extrapolam-se da carreira profissional dos ilusionistas Alfred Borden (Christian Bale) e Robert Angiers (Hugh Jackman) para as suas vidas pessoais e para os seus métodos, usados sempre para roubar o rival, desgraçá-lo, envergonhá-lo, destruir o seu trabalho e qualquer possibilidade de felicidade ou realização pessoal. Dois homens calculistas e obcecados que se odeiam, mas intimamente ligados no mesmo propósito – ultrapassar e destruir o seu inimigo. As pessoas nas suas vidas, as suas famílias e amigos tentam construir uma vida com eles, afastá-los da fixação doentia que nutrem um pelo outro, mas sempre sem sucesso. Olivia Wenscombe (Scarlett Johansson), assistente de magia de Angiers é irremediavelmente apanhada na teia de enganos, Sarah Borden (Rebecca Hall), a esposa Alfred, sofre com a alienação do marido, e mesmo Cutter (Michael Caine), engenheiro e amigo próximo de Angiers tenta dissuadi-lo de levar a cabo os seus planos mirabolantes, procurando apanhar os pedaços depois da destruição causada. Os secundários são de luxo, especialmente Michael Caine, que brilha, destilando uma certa tristeza interior de quem carrega segredos a mais e se sente impotente para prevenir a desgraça e a loucura. Scarlett Johanssen chama muito menos a atenção sobre si do que o que estamos habituados, não conseguindo roubar as cenas aos brilhantes e irrepreensíveis Bale e Jackman. David Bowie tem também uma óptima contribuição como o famoso, místico e incompreendido cientista croata Nikola Tesla, personagem real que providencia uma outra dimensão ao filme, esbatendo a linha entre realidade e ficção. Tesla é envolvido na trama por Borden e torna-se numa espécie de oráculo, preconizando que nada de bom poderá advir da obssessão de Angiers.
O filme exige que sigamos a sugestão da tagline à risca – “Are you watching closely?”. Nolan conta a sua história recorrendo a inúmeras prolepses e analepses, usando o mesmo método que as suas personagens ilusionistas – tenta confundir o espectador, levando-o a olhar para um elemento específico e calculado e distraindo-o do pormenor escondido que providencia a resposta ao enigma. O Terceiro Passo é daqueles filmes que horas depois de termos saído da sala de cinema ainda damos por nós a encaixar mais uma pequena peça. Construído com mestria, por confuso que possa parecer, o argumento resolve-se em si mesmo, nada é deixado ao acaso, como é já habitual no racionalismo quase mecânico de Nolan. Tendo sido acusado de frieza e calculismo excessivo, tanto no argumento como na caracterização das personagens, The Prestige é um jogo de lógica extremamente concentrado no seu objectivo, um quebra-cabeças soberbamente concebido e que dá gosto tentar resolver. No entanto, e sentindo-me obrigada a recorrer à inevitável comparação com a sua obra-prima, Memento, a imprevisibilidade do desfecho não é inevitável. Se, com efeito, estivermos atentos e preferirmos tentar descortinar o final antes do tempo em vez de nos deixarmos levar ao sabor da narrativa até à derradeira surpresa, o desenlace da trama pode ser adivinhado, com mais ou menos precisão no pormenor, ao contrário do que acontece com Memento, que realmente fica uns pontos acima desta obra. De qualquer modo, na minha modesta opinião enquanto fã da película, Memento será uma fasquia que Nolan terá extrema dificuldade em ultrapassar ou mesmo igualar, o que não pode de qualquer modo invalidar a excelência dos seus outros trabalhos. Até porque se invertermos a comparação, e contrastarmos The Prestige com o resto da produção cinematográfica de 2006, temos claramente nas nossas mãos um dos melhores filmes do ano.

    Disconcordem: 8/10

Discordâncias:

Combina muito verniz, um envolvimento mediano das personagens e um desfecho confuso.

Variety

Uma obra deslumbrante que me deixou ansioso por vê-la mais uma vez.

The Guardian

5 comentários »

  1. Concordo plenamente com tudo o que dizes sobre o filme.
    Apesar de ainda (ainda porque já o tenho na minha posse) não ter visto o Memento, acredito que este filme foi (para mim) o melhor filme do ano, passando, por pouco, o The Departed e o Babel (falo apenas dos filmes que tive a oportunidade de ver).

  2. gonn1000 Said:

    Curioso, também escrevi sobre o filme hoje LOL
    Bem, pelo menos não repeti as mesmas ideias, já que a minha opinião não é assim tão positiva. O filme é um entretenimento aceitável, mas não me meteu a pensar muito nele, pelo contrário, as personagens não me despertaram grande interesse e os twists, apesar de bem metidos, não chegam para que o filme me marque muito.

  3. Knoxville Said:

    É uma excelente obra. Deixa vontade de tornar a vê-lo.

    Mas o melhor para mim foi a homenagem a Tesla, um dos génios mais incompreendidos e injustiçados da nossa história.

    Amanhã ou depois também digo qualquer coisa sobre o filme no meu blogue.

    Cumprimentos🙂

  4. vcs dizem isso porque nunca viram o 48 Horas

    (P.S. bom trabalho Barbara)

  5. Rui Rocha Said:

    Subscrevo a opinião do blogger que me antecede. É, de facto, um excelente filme.


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