
Hannibal Lecter é uma das personagens mais marcantes da última década, que nos tem vindo a intrigar a aterrorizar desde o mítico Silence of the Lambs em 1995. O bom (?!) doutor voltou aos nossos ecrãs em Hannibal e The Red Dragon, eternamente encarnado por Sir Anthony Hopkins, que lhe ofereceu o olhar gélido e uma classe e um charme impreteríveis. E agora, a fazer render a galinha dos ovos de ouro e a juntar-se à moda da prequela, cá está, o filme que ignora a conhecida premissa de que o que mais se teme é o desconhecido. Hannibal Rising quer desconstruir e explicar a origem do mal, o que para além de ser areia a mais para a camioneta de Peter Harris, diminui o singular misto de medo e fascínio que a personagem ostentou desde que a conhecemos.
De modo asséptico, desapaixonado e esquemático, Hannibal Rising esmiúça as acções e motivações do seu protagonista, retirando-lhe lentamente o eterno status de vilão, preferindo identificá-lo com o papel do anti-herói. O jovem Hannibal não age movido por um mal incompreensível, mas por vingança. Reza então esta história que, em plena Segunda Guerra Mundial, os pais dos pequenos Hannibal e Mischa são mortos na sua isolada quinta durante um ataque militar, deixando as crianças à mercê de um grupo de soldados que não prezam pela moral. Impossibilitados de regressar devido aos rigores do Inverno, o grupo sente a fome apertar, pelo que acabam por matar a menina para se alimentarem. O pequeno Lecter sobrevive, crescendo obviamente traumatizado num orfanato londrino até à sua fuga para a casa de sua tia, Lady Murasaki Shikibu (Li Gong), uma bela viúva japonesa com quem, já agora, desenvolverá um relacionamento romântico.
Depois, como seria de esperar, Hannibal alterna os seus estudos de medicina com imaginativos homicídios de personagens completamente odiosas e de quem não temos pena nenhuma, normalmente seguidos de um pequeno lanche em honra da sua falecida irmã. E é isto. Um jovem que costumava ser um vilão brilhante passa a vingador duma criancinha inocente, as vítimas são da pior espécie que há, e pelo meio temos um enredo romântico estranho e rebuscado com uma severa falta de química entre os seus protagonistas.
De qualquer modo não estamos perante uma total perda de tempo, sendo a maior mais-valia do filme Gaspard Ulliel que consegue manter o interesse numa história contada em piloto automático, exibindo um aspecto sinistro e frio através duma beleza não convencional e um charme envolvente e próprio. É Ulliel que dá vida aos melhores momentos do filme, mas mesmo assim estes parecem acabar depressa, voltando a deixar cair a narrativa dormência indiferente que nos faz ter saudades de frases e momentos como “I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti”, Ralph Fiennes exibindo a sua “tranformação” ou simplesmente o arrepiante sussuro “Clarisse…”
A dualidade da luta interna do homem contra o monstro poderia ser profunda e perturbadora, mas não, tudo parece feito de modo superficial, quase politicamente correcto, anulando-se a ambiguidade e sendo-nos esfregado na cara sem sensibilidade o lado bom e humano que houve no psicopata antes deste ser consumido pelos horrores da própria vida. Para além disso, não conseguimos evitar pensar que não pode ser esta toda a história, que a morte prematura e certamente hedionda da angélica irmã não chega para criar a autêntica personificação do mal que é Hannibal Lecter. Fazendo a pergunta sobre a origem do mal esta história diz-nos que este não é puro mas fruto dum ciclo vicioso, que as vítimas serão os predadores, mas no caso do Dr. Lecter (e pela saúde do nosso imaginário cinematográfico) não é essa a resposta que queríamos ouvir.
O thriller psicológico profundo fica infelizmente esquecido num filme de acção com pouco suspense, que dá para entreter durante duas horas mas que não está de modo algum à altura do nome que o suporta. É uma história pálida e simplista sobre o mal gerado pelo mal, que provavelmente resultaria melhor se, simplesmente, a sua personagem principal não se chamasse Hannibal Lecter.
Disconcordem: 5/10
Discordâncias:
The great thing about monsters is that they glide noiselessly from nightmare straight into myth, fully formed and eternally mysterious. To know what made them is to explain them. And once you explain anything, you begin to lose your fear of it.
Lecter is presented as a soul-dead vigilante who reserves his carnage for the truly deserving; that’s a long way from the Lecter of Silence of the Lambs who kills and tortures innocent and guilty alike.
Newark Star-Ledger/Chicago Tribune
Ulliel’s impressive facial dexterity keeps his expressions devoid of emotion, except for slowly sadistic smiles, careful enunciation, and an occasional Hopkins-worthy eye twitch.
Premiere Magazine